DOSSIÊ DE INCLUSÃO
Para começar este dossiê, gostaria de relatar um pouco da minha experiência com alunos com necessidades especiais.
Quando me formei no magistério no ano de 2000, eu não esperava trabalhar com crianças com alguma deficiência, pois não me sentia preparada, pensava não ser capaz de ser útil.
Em 2002 comecei a trabalhar na Educação Infantil. Nesta escola, estudava um menino com síndrome de Down, quando nos encontrávamos no saguão ele me cumprimentava e sorria muito.
Então quando ele chegou na minha turma, a sua adapatação foi tranquila.
Eu tinha várias dúvidas de como deveria proceder com ele, que atividades fazer, se ele deveria fazer as mesmas coisas que os outros colegas ou se deveria ter atividades específicas.
Muitas destas dúvidas foram respondidas pela mãe dele, que me auxiliou bastante. Me explicando que ele deveria ter o mesmo tratamento que os outros, principalmente quando fazia coisas erradas.
Lembro-me dos primeiros dias dele na sala. Se eu piscava o olho, ele saía voando e fugia, indo direto pro portão.
Os colegas tinham muito amor, cuidado e carinho por ele. Sempre prestando atenção e ajudando-o no que fosse necessário.
Ele ficou comigo dois anos. No primeiro ano, não falava quase nada, se comunicava por sinais, tanto comigo quanto com os colegas. E uma das nossas combinações no segundo ano foi ensinar o "Mateus" a falar. De que forma? Não alcansando tudo que ele apontava, combinamos que ele deveria pedir (pois a mãe me disse que em casa ele falava tudo). Confesso que no início foi difícil, ele não falava de jeito nenhum, mas aos poucos ele foi se acostumando com todo mundo fazendo pressão e decidiu que poderia falar.
Tinha dias que ele não queria fazer nada, nenhuma atividade. Tinha dias que ele brigava muito e precisava ir de castigo. Mas preciso dizer que nós dois construímos uma relação muito bonita de confiança e respeito mútuo, que permitiu que ele, no segundo ano, participasse de todas as atividades, me obedescesse quando era chamado a atenção.
Outra conquista que obtive, foi a confiança dos pais dele, ou seja, eles tinham muito medo que ele se machucasse, que se perdesse quando saímos pra passear. Mas depois de muita conversa eles foram liberando as saídas dele, demonstrando aí tanto a confiança em mim quanto nele, foram percebendo que ás vezes o superprotegiam. O ponto alto foi no final do ano, que ele pode nos acompanhar ao passeio no zoológico.
Aprendi muito com ele, dentre tantas coisas aprendi a buscar subsídios sobre a doença; a ultrapassar os limites do preconceito, mas principalmente aprendi a enxergar o grande potencial que ele tinha.
Esta foi uma das experiências mais significativas que tive nos meus anos de magistério, que me proporcionou mais prazer em ensinar e observar o desenrolar do crescimento e do aprendizado de um aluno, cada pequena coisa era comemorada por todos e isto acabou estimulando a turma inteira.
Descrição da minha escola quanto a inclusão
Minha escola chama-se EMEI Branca de Neve. Nela estudam 214 alunos divididos em 9 turmas, uma de berçário, duas de maternal 1, uma de maternal 2, uma de maternal 3 (que é a minha turma), dois jardins nível A e duas turmas de jardim nível B.
Temos 4 casos de inclusão na escola. Uma cadeirante, um com Síndrome de Down e dois com problemas neurológicos. A cadeirante está na turma de JNA da manhã e os outros 3 estão no JNA da tarde.
Cada turma conta com uma auxiliar para atender as inclusões.
A aluna cadeirante chegou este ano na escola (onde não havia rampa), sem cadeira de rodas, precisava ser levada no colo para todos os lados. A professora exigiu que conseguissem para a menina uma cadeira e consequentemente a construção de rampas de acesso, no que foi bem sucedida, pois conseguiu os dois.
Serviços de Atendimento Educacional Especializados
No nosso município de Sapiranga, contamos com vários recursos para atender alunos com necessidades especiais:
APAE (Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais)- Têm como missão promover e articular ações de defesa de direitos, prevenção, orientação, prestação de serviços e apoio às famílias, direcionadas a melhoria de qualidade de vida da pessoa com deficiência e à construção de uma sociedade justa e solidária. A escola atende 120 alunos, 44 de alunos de escola especial, 45 no CAE (centro de atendimento especializado) e na parte clínica 31 alunos. A área técnica desta instituição possui profissionais capacitados na área de serviço social, psicologia, fonoaudiologia, estimulação precoce, fisioterapia e neuropediatria.
- A APAE também oferece projetos como expressão e dança, esportes, literatura, psicopedagogia inicial, arte e artesanato, laboratórios de aprendizagem e inclusão e dentro deste projeto, A instituição faz uma parceria com a rede municipal e estadual oferecendo aos alunos um acompanhamento clínico e pedagógico.
- CAE (Centro de Atendimento Especializado) – Oferece projetos de esportes, literatura,psicopedagogia inicial, grupo de artes, grupo de artesanato, dança e expressão, laboratório de aprendizagem, informática, culinária e horta.
EJA/APAE noturno- Que atende alunos que freqüentam a APAE e são divididos em duas turmas.
NAE (Núcleo de Atendimento ao Educando)- Atende cerca de 130 alunos que freqüentam o turno oposto nas escolas municipais. Seu objetivo é resgatar nos alunos a auto-estima, desenvolver diferentes habilidades e capacidades, assegurando o respeito em relação ao ritmo e as limitações de cada um.
ESTUDO DE CASO
Esta semana conversei com a professora da minha escola que tem três inclusões na turma. Pedi que ela me relatasse algumas características deles e me interessei por um menino que aqui chamarei de Douglas, segundo a mãe, ele tem problema nervoso, mas não sabe exatamente qual o diagnóstico correto. Ela pensa em procurar ajuda para ele mais tarde, quando ele tiver 11 ou 12 anos, acha que por enquanto não é necessário, embora a professora tenha cansado de conversar com ela sobre a importância de procurar ajuda o mais rápido possível.
As características que a profe me passou são as seguintes:
- Ele é adotado, a mãe disse que a mãe biológica sofria constantes agressões do marido enquanto estava grávida e que este seria um motivo por ele ser assim;
- Ele não consegue falar, somente faz ruídos;
- Não compreende totalmente o que lhe é falado, se faz algo errado e a professora chama sua atenção ele olha pra cima e chora, para e vê se ela ainda esta olhando, se estiver ele volta a olhar pra cima e chora mais, se ela não estiver, ele para e vai fazer outra coisa;
- Não consegue participar da rodinha, fica sempre no meio, fazendo ruídos e gritando;
- Demonstra pouco ou nenhum interesse pelos trabalhos que os colegas realizam em aula;
Este parece ser um caso delicado, já partindo do princípio de que a mãe não vê necessidade de buscar ajuda ou até mesmo saber o que de fato o menino têm.
A professora se diz impotente para ajudar ou de que forma ajudar, pois não enxerga nenhum avanço da parte dele e nem sabe muito bem como incluí-lo na aula. Pois segunda ela, se ela vai dedicar atenção exclusiva pra ele, isto seria exclusão.
Fica a pergunta: - Atendê-lo com um pouco de exclusividade apenas em alguns momentos seria exclusão?
Como venho acompanhando de perto o caso deste aluno, fico sempre perguntando como o menino está, se está evoluindo, se ela (professora) têm diversificado as atividades, etc. Percebi que o meu interesse pelo aluno, despertou a curiosidade da professora sobre ele, ou pelo menos a necessidade de dar um pouco mais de atenção. E nestas últimas semanas ela percebeu que ele parece estar regredindo, tudo o que conseguia fazer, como se portar melhor na rodinha, não agredir tanto os colegas, não está mais fazendo. E como a mãe realmente não está se importando, achando que tudo é normal, a professora já não sabe mais o que fazer.
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Olhando os dossiês das colegas e lendo comentários da Liliana, encontrei um em que ela questionava uma colega sobre ela ter experiência com alunos com grandes dificuldades de aprendizagem, então me lembrei de um alunos que tive há uns cinco ou seis anos, na pré-escola. A turma era bem adiantada, ainda não tinha ocorrido este processo de passar o ensino fundamental para nove anos, estes meus alunos na época tinham entre seis e sete anos, e para comprovar que eles eram adiantados dois alunos saíram lendo no final do ano. Bom, voltando ao foco, este aluno em questão se esforçava para acompanhar os demais, enquanto os outros já sabiam o seus nomes e reconheciam os dos colegas ele não identificava nenhuma letra, nem mesmo do próprio nome. Ele tinha bastante ajuda dos colegas também, mas eu sentia que não era suficiente todo o esforço que fazíamos. Nesta época o encaminhei para o NAE (na época, se não me engano o nome era Centro de Atividades Múltiplas), mas não veio ninguém atendê-lo neste ano, nem conseguiu vaga.
O ano acabou, ele foi para a primeira série e continuou com as mesmas dificuldades. Depois não tive mais notícias dele.
Neste ano vi uma fotografia dele num banner do NAE e fiquei super feliz, pois finalmente ele está sendo atendido e provavelmente está com um melhor rendimento na escola e conseguindo aprender.
Continuando meu estudo de caso, de acordo com a unidade 7, conversei mais uma vez com a professora, ela me informou que ele não demonstra nenhum tipo de afeto para com ela, sua auxiliar nem demais adultos que trabalham na escola.
Já com os colegas ele demonstra um pouco de carinho, ás vezes quer abraçá-los, mas isto nunca ocorre durante uma técnica, mas sempre quando os outros colegas estão brincando, correndo, ou então fazendo atividades na sala de aula. E acontecendo deste modo, o abraço nem sempre é bem recebido, pois os outros ficam sem entender.
A professora tenta beijá-lo, fazer um cafuné, mas ele não deixa, se esquiva e não quer contato.
A psicopedagoga que atende a turma, falou para a professora que faltava muito o amplo para ele, ou seja, a motricidade ampla, pois ele é bastante duro, ou melhor, tem o corpo rígido. Então a professora começou a trabalhar no muito no chão, trabalhar com cadeiras, caixas grandes, bancos, mesas, etc. Mas mesmo assim ele não consegue soltar-se, nem mesmo um pouco.
Uma das dificuldades que elas encontram na sala de aula quanto a isso é a maneira como ele não consegue locomover-se, nem mesmo baixar ou levantar as suas calças.
Mas uma luz se acendeu, pois a professora vislumbrou a possibilidade dele ter problema de visão, e talvez seja por isto que ele não consiga descer uma escada sozinho ou então ir para um lado, quando seus colegas vão para o oposto. Isto seria realmente importante para o seu desenvolvimento, pelo menos seria uma nova chance de avanço.
Quanto a avaliação do meu estudo de caso, a professora não sabe como fazê-la, pois como já relatei anteriormente, ele parece ter regredido.
Esta semana ela estava levando brinquedos que são parecidos com ábacos para a sala, então perguntei o que era aquilo, e ela respondeu: - Recuperação Intensiva. Sorri e então ela falou que seria para os alunos de inclusão, dentre eles o que estou observando, ela me disse que tentaria fazer atividades só com eles, para que o restante da turma não dispersasse a atenção deles. No outro dia, ela me falou que não adiantava, eles não respondiam aos estímulos propostos e que ela não saberia o que escrever.
Então lhe falei de um dos textos que eu estava estudando nesta interdisciplina, e que era importante focar nos aspectos positivos e não nos negativos, mas então ela rebateu e disse que tinha duas folhas completas de observações sobre ele e eram só coisas negativas, retrocessos mesmo, pois nem ela nem sua auxiliar conseguiam observar nem um ponto de melhora.
O que sei é que deve ser muito difícil conseguir o que escrever sem ter uma base concreta, ou seja, sem nenhum avanço ou mesmo um comportamento positivo do aluno.
Fica a questão: - Como fazer então?
Descobri uma coisa que o aluno do meu estudo de caso gosta... música. A proefessora me contou que é uma das únicas coisas que chama a sua atenção, ele não canta nem dança, mas se balança. Então sugeri que ela fizesse um trabalho com ele à partir da música, de diversos tipos, mais agitadas, mais lentas, com movimentos diferentes que exijam o movimento do corpo dele. Ela gostou da idéia e disse que tentaria.
E eu fiquei feliz por contribuir nem que fosse só com uma idéia, mas que talvez ela traga frutos.
O Douglas, tem 6 anos. Vivi apenas com a mãe adotiva.
Como falei anteriormente, a mãe do aluno foi pedir um encaminhamento para o oftalmologista, (sugestão da professora) mas esta consulta ainda vai demorar para acontecer, pois foi marcada pelo SUS. Desta forma não se tem nenhuma noção se há um problema de visão ou não.
Quanto ao trabalho pedagógico que é realizado com o aluno, este não se diferencia do trabalho que é feito com o restante da turma, a professora pensa que ele deve acompanhar o ritmo da turma e não o contrário.
A coordenadora da escola está sempre disposta a ajudar a professora em suas dúvidas. Mas a escola não consegue fazer reuniões com a mãe do aluno, pois ela acredita que não precisa explicar mais nada e também só irá procurar ajuda "se precisar" quando ele tiver doze anos.
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Espero sinceramente que a mãe do Douglas entenda que ela só estará fazendo um bem para ele procurando ajuda e que negar que ele tenha algum problema, só o estará prejudicando.
"Todas as flores do futuro estão nas sementes de hoje." Provérbio Chinês
Comments (5)
Caroline Bohrer do Amaral said
at 6:52 pm on Apr 6, 2009
Ok, aceitei o seu convite. bjs, Carol
Maria del Carmen Cabrera Martins said
at 7:50 pm on Apr 7, 2009
Olá Michele vou ficar aguardando o termino do teu relato
Abraços
Maria del Carmen
liliana said
at 9:32 pm on Apr 22, 2009
Oi Michele...estamos aguardando...e?
nao nos deixe sem tua continuação...ate agora estas indo muito bem...
lili
Maria del Carmen Cabrera Martins said
at 6:16 pm on May 31, 2009
Olá, Michelle,vocês poderiam começar pesquisando o que ele gosta, fazendo atividades , assim tentar despertar o seu interesse, claro que não vai ser fácil, mas aos poucos, com carinho, atenção, pode ter avanços
Abraços
Maria del Carmen
liliana said
at 8:50 pm on Jun 24, 2009
Michele
estou aqui olhando com calma teu dossiê
percebo que nao tens abordado alguns dos pontos que solicitamso na unidade 6. Por exemplo sobre as questões de aprendizagem, o que esse aluno está fazendo? o que ja sabe? Dizes que ele nao fala, mas escreve? Também acho que poderias completar um pouco o perfil dele, está com quantos anos? ele esta no jardim Nivel A, correto? o que a professora trabalha com ele? que tipo de atividades? o que ele realiza em sala de aula? alem da fala e da motricidade ampla perceberam algo mais? falas que a professora percebeu um problema de visão? fizeram algum teste? foi confirmado? o que a escola faz para incluir esse aluno? há algum tipo de núcleo ou reuniões com esses professores e com os pais para estudar alternativas?
estes questionamentos devem te auxiliar para completar e deixar teu dossiê melhor...espero ter contribuido
abraços
lili
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